Páginas

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Aniversário de criança e livros

Gosto muito de ser convidada pra aniversário de criança. Fico feliz de ter uma oportunidade de dar livro de presente pra um serzinho que talvez nem saiba ler. É claro que eu poderia dar livro de presente pra algumas crianças, os filhos dos amigos, quando eu quisesse, mas sempre fico pensando que os pais podem achar que estou querendo enfiar goela abaixo o gosto pela leitura (mas que mal haveria nisso?) e de repente podem achar uma invasão da minha parte. No aniversário delas pelo menos tenho esse passe livre.

Lembro do primeiro livro que ganhei de aniversário. Quer dizer, talvez nem tenha sido o primeiro, mas foi o que ficou na minha memória. Antes disso, eu já havia tido o contato com livros. Meu pai trabalhava em uma indústria farmacêutica e acho que eles tinham alguma parceria com uma editora e ele comprava uma parede de livros de tempos em tempos pra deixar no quarto dos meus irmãos e a gente podia ir lá e se servir do livro que quisesse. Ou não tinha nada a ver com o trabalho dele, mas sim algo que eles compravam. Chamava Ciranda de Livros. Era um plástico transparente bem grande que ficava pendurado na parede e os livros ficavam expostos cada um no seu "envelope". Acho que caibam uns 20 ou 30 livros ali. Lembro muito dos livros da Eva Furnari, em especial "A Bruxinha Atrapalhada". Eu simplesmente adorava esse.


Mas o que me marcou muito como presente recebido foi o que eu chamava de "Livro das Sete Cores". Lembro que ganhei de uma tia, cunhada do meu pai, e lembro da cena quase com clareza na minha mente. Ela falou alguma coisa sobre o presente, e eu abri o pacote e achei simplesmente lindo o livro. Fiquei encantada. Não sei se por ser capa dura, pelas imagens diferentes do menino e da menina da capa. Só sei que me apaixonei e me apeguei a esse livro de uma forma que é difícil explicar. Tenho esse livro até hoje. Guardo como uma lembrança afetiva importante e talvez um marco na minha vida. 

(Aliás, será que só eu que acho chato esse hábito atual de você ir na festa da criança e ter que colocar o presente em uma mesa pra criança abrir depois? Eu acho muito legal a criança abrir o presente na minha frente pra eu poder ver a reação dela, ver se ela vai gostar ou não. Além de ser uma oportunidade de a criança falar "oi" pra gente e lembrar da nossa cara, porque muitas vezes ela está brincando com os amiguinhos e nem quer saber de cumprimentar adulto. E acho importante esse ritual de falar "oi" pros amigos dos pais e abrir o presente ali mesmo. Simplesmente perdemos esse ritual. Mesmo que a criança demonstre que não gostou, eu gosto de ver a reação dela, que sempre é verdadeira. Até pra no ano seguinte eu mudar o estilo do livro e perceber a nova reação. É claro que a gente sempre espera uma reação positiva, mas a reação negativa sempre nos diz algo. E fico sempre feliz der ver a honestidade das crianças, ainda não corrompidas pelo sistema cultural.)


Mas voltando ao livro que ganhei em um aniversário (talvez dos meus 6 ou 7 anos), é esse sentimento que tenho a esperança de causar nas crianças que eu presenteio com livro. Que elas se apaixonem pelos livros e pela leitura como eu me apaixonei. Tem gente que diz que eu leio muito, mas eu acho que não. Eu gostaria de ler e ter lido muito mais na minha vida; ter conhecido muito mais obras, muito mais escritores e principalmente escritoras, ter mergulhado e me aprofundado muito mais. 

Mas tenho feito isso agora. Ler é uma das coisas mais prazerosas que faço na vida. Sento pra ler e posso passar o dia lendo. Esqueço das horas. A única coisa que me lembra da hora é o cansaço na vista (depois dos enta é isso) ou a luzinha de leitura que apaga porque acabou a bateria. Daí tenho que colocar pra carregar no USB. Mas até comprei duas, porque, enquanto uma carrega, eu vou usando a outra, daí não preciso interromper a leitura.

O livro realmente é meu companheiro. Gosto muito de filosofar e ficar pensando com profundidade naquilo que está escrito, ficar imaginando o porquê da escolha daquela palavra por quem escreveu ou traduziu. É um exercício que me dá muito prazer, me preenche e aquece meu coração. Melhor que isso é poder conversar sobre o livro com quem também o leu e que também gosta desse tipo de papo, em especial presencialmente, podendo olhar as pessoas no olho. 

Pra mim também, como era pro escritor francês Victor Hugo, "Ler é beber e comer", uma necessidade básica que precisa ser atendida na minha vida. "O espírito que não lê emagrece, como o corpo que não come".

terça-feira, 28 de abril de 2026

Nosso Clube de Leitura e o livro do mês

Fazia uns 10 anos ou mais que eu tinha um grande desejo de participar de um Clube do Livro presencial pra conversar com pessoas bacanas sobre determinado livro. Muitas coisas aconteceram comigo nesses últimos anos e década, mas essa vontade seguiu aqui. Em outubro de 2025, finalmente quis tirar isso de dentro de mim e joguei a ideia nos meus stories do Instagram e do WhatsApp sobre um Clube de Leitura em Duartina. Eu precisava comprovar se teria alguém mais interessado nisso ou se era só um sonho da minha cabeça irrealizável em Duartina, cidade onde vivo há 25 anos.

Para minha surpresa e alegria, uns bons amigos me falaram que tinham interesse em participar e no mês seguinte começamos. Rapidamente criei um grupo no WhatsApp e fui desenhando como seria esse clube, com a ajuda do pessoal. Não podia deixar aquela energia se dissipar. No mês seguinte, dia 19 de novembro, tivemos nosso primeiro encontro, e ontem, dia 27 de abril de 2026, o quinto.


Já lemos e conversamos sobre “A metamorfose”, de Franz Kafka, traduzido por UNAMA, “O profeta”, de Khalil Gibran, com tradução de Bettina Becker, “Em busca de sentido”, de Viktor Frankl, traduzido por Carlos Cardoso Aveline e Walter O. Schlupp, 
“O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, traduzido por Fernando de Castro Ferro e "A Cabeça do Santo", escrito pela brasileira e cearense Socorro Acioli. 

O livro de ontem foi uma delícia de ler, com uma linguagem gostosa, divertida e fácil. Fazia tempo que eu não ria tanto lendo um livro, porque acabo lendo coisas mais densas, que é o que gosto mais. Mas valeu a pena. Não é um livro que vai mudar a vida de ninguém, mas acrescenta umas horas de leveza nos nossos dias. Além disso, deu pra aprender umas coisas sobre cultura pra quem gosta de aprofundar. No encontro, falamos das mornas, de cordel, realismo mágico, Gabriel García Márquez.

O que eu gostei mesmo desse livro foi a linguagem da escritora; ela escreve muito bem. Realmente uma delícia ler a língua portuguesa do jeito que ela escreveu. A escolha das palavras é bem cuidadosa, e o livro tem frases muito boas, graciosas e até filosóficas. Fiz uma coletânea delas:

página 12 O desmaiado era bonito e foi isso que o salvou.

p. 17 Nem o ar tinha esperança de ser vento.

p. 18 A única forma de comover naquele pedaço perdido de mundo era a ameaça de que Deus estava vendo tudo e não tolerava descaridades.

p. 40

 Não chama o santo de diabo, homem, é pecado.
— E ler revista de mulher nua na cabeça do santo, é pecado não?

p. 41 Essa cabeça parece que dá inteligência, porque eu tô tendo uma ideia. 

p. 51 Até a morte faz falta quando demora a vir.

p. 51 Desgraça é tudo coisa de se rir.

p. 53 [Contexto: O nome de uma personagem do livro é Madeinusa]

Seu pai falava que coisa linda como ela haveria de ser importada, como o rádio que ele comprou. Na caixa estava escrito: "Made in USA".

p. 60 Era tudo tão lindo que nem coube nos seus pequenos sonhos. Ela precisou aprender a sonhar mais.

p. 107 Via-se de tudo, porque esperança e desejo obram o impossível. 

p. 109 Falava várias línguas, o Fernando. Conversa embriagando. 

p. 122 Nunca é como a lua, não pertence a ninguém.

p. 146 Isso de ter fé é o que desgraça gente pobre como eu. 

p. 149 Não se mata alguém já tão abandonado pela vida. 

p. 153 Tu mente tanto que nem adianta mais querer ser honesto. 

p. 155

— Final, final mesmo, Samuel, é só quando eu baixar teu caixão na cova. Ainda dá tempo.

— Tu sonha muito, Chico.

— Foi a morte que me ensinou. O tempo de sonhar é em cima da terra.

p. 119 Essa forma de viver sem sonhos, sem caminhos novos, como se aquela cidade fosse o mundo todo, e não era. O mundo é grande, cheio de coisas, tudo longe dele. E o pior: em Candeia não tinha vento. Ele precisava ventilar o corpo, as ideias, dependia de vento batendo no rosto. Por tudo isso não pensou duas vezes: Fernando foi sentir o vento na África.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

A Morte Devagar

Martha Medeiros


Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.


Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.


Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.


Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.


Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.


Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.


Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.


Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.


Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. 


Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. 


Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.